domingo, 31 de julho de 2011

Meus olhos gulosos não sabem se choram ou se esgueiram a próxima esquina. Meu coração não sabe se bate ao som das turbinas do avião ou se cessa o batimento pela falta que tanta gente me faz. Meus pés ora correm, ora titubeiam, ora pensam em voltar. Minhas mãos tocam os objetos pela última vez, as pessoas pela última vez. Meu corpo quer ir, meu coração quer ficar e meu cérebro ainda não se decidiu.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Futuros amantes - Chico Buarque

Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar

E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos

Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização

Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você

terça-feira, 10 de maio de 2011

Carta a uma senhorita em Paris - Júlio Cortázar

[...] Mas fiz as malas, avisei sua criada que viria me instalar aqui, e subi de elevador. Precisamente entre o primeiro e o segundo andar, senti que ia vomitar um coelhinho. Nunca lhe contara antes, não pense, porém, que por deslealdade, mas naturalmente a gente não vai ficar explicando aos outros que, de quando em quando, vomita um coelhinho. Como isto me sucedia estando só, escondia o fato como se escondem tantos detalhes do que acontece (ou a gente faz acontecer) na intimidade total. Não me censure, Andrée, não me censure. De quando em quando me acontece vomitar um coelhinho. Não é razão para não viver em qualquer casa, não é razão para que a gente deva se envergonhar e estar isolado e andar se calando.
Quando sinto que vou vomitar um coelhinho, ponho dois dedos na boca como uma pinça aberta, e espero sentir na garganta a penugem morna que sobe como uma efervescência de sal de frutas. Tudo é rápido e higiênico, transcorre em um brevíssimo instante. Tiro os dedos da boca, e neles trago preso pelas orelhas um coelhinho branco. O coelhinho parece contente, é um coelhinho normal e perfeito, só que muito pequeno, pequeno como um coelhinho de chocolate, mas branco e completamente um coelhinho. Ponho-o na palma da mão, levanto sua penugem com uma carícia dos dedos, o coelho parece satisfeito de haver nascido e bole e esfrega o focinho na minha pele, movimentando-o com essa trituração silenciosa e cosquenta do focinho de um coelho contra a pele de uma mão. Procura comer, e eu (falo de quando isto acontecia em minha casa de campo) o levo comigo à varanda e ponho-o no grande vaso onde cresce o trevo que plantei para esse fim. O coelhinho levanta bem suas orelhas, envolve o trevo novo com um veloz molinete do focinho, e eu sei que posso deixá-lo e ir embora, continuar por algum tempo uma vida não diferente da de tantos que compram seus coelhos nas granjas. [...]

terça-feira, 29 de março de 2011

Da série "Rascunhos" - Escrito em 08/07/09

(e da série "não sei fazer poemas, mas whatever...")

Tinha o dom de se fazer sorrir
Simples, diria um descritor qualquer
Tinha alma de menino,
daqueles que a mãe quer sempre agarrado na barra da saia.
Menino?
Criatura crescida por meios mundanos,
meninice deixada pras horas vagas.



Diz-se do preto ser a ausência de cor,
talvez a esperança do toque da aquarela da vida.
Energia dissipada em vinte e quatro horas,
carrega, descarrega, descarrega, descarrega,
carrega.
Torna a descarregar.



Tinha um meio sorriso, impensado,
daqueles que mostram a essência da alma,
daqueles que acendem um aviso na mente
das mulheres: "Cuidado!".
Sorriso impregnado de suspiros alheios.



Era um romântico, um sobrevivente entre
os homens de terno e flores compradas.
Ares de conquistador, faces de galanteio.
Se queres saber, restos do tal cavalheiro.



Tinha tanto a mostrar que entala, fica preso.
Sai aquilo que nos convém, limitado e censurado.
Goteja, despeja...deixa vazar o que sente.



Trajes superficiais de um ser atencioso.
Caixinha de surpresas, chapéu de mágico.



Era uma figurinha, daquelas que brilham no escuro.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Anda faltando poesia na minha vida, talvez seja a falta que você me faz.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Para: Jaqueline de 2011.

Jaque, que tal ser menos perfeccionista? Você sabe que o mundo não é perfeito, nunca será, está na hora de se aceitar e aceitar os outros. Está na hora também de confiar mais em si mesma, esse truque de dar crédito somente às derrotas e se esquecer das vitórias dois segundos depois já te mostrou que é falho. Não espere que acontecimentos brotem do chão, corra atrás, bote o pé na lama, se suje. Tente escutar mais o que você fala para os outros, acredite na sua consciência. Não faça uma tempestade num copo d'água toda madrugada, você sabe que seus medos somem com o raiar do sol. Xingue mais as pessoas, na maioria das vezes elas merecem mais do que seu estômago. Chore, chore litros, baldes, rios! E, por favor, se for mentir, que seja para as outras pessoas, mentir pra si mesmo é a coisa mais idiota que existe! Ah, pare de achar que as coisas só acontecem com você, que só você tem medo, todas as pessoas têm medo, são pessoas! Tenha mais paciência com os homens, desse jeito você vai acabar sozinha e sem gatos, porque é alérgica. Vai, eles nem são tão ruins assim, o seu problema é achar que eles devem ser, de novo, perfeitos. Esquece isso, eles são pessoas e, pior que isso, homens! Esse ano muita coisa vai acontecer, não quero ver você fugir da raia, ninguém morre de medo, ninguém! É hora de realizar tudo aquilo que um dia você sonhou em fazer, é isso, é agora. Boa sorte!
.
De: Jaqueline de 2010.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Aqui ficaremos

Como se fôssemos vinte impossibilidades

Em Lydda, em Ramla, na Galileia

-

Aqui ficaremos

Como tijolos sobre os vossos peitos

Como lascas de vidro nas vossas gargantas

Como espinhos de um cacto nos vossos olhos

Como uma tempestade de fogo.

-

Aqui ficaremos

Como um muro sobre os vossos peitos

Lavando preguiçosamente os pratos, no ruído dos bares

Servindo bebidas aos nossos senhores

Esfregando o chão das cozinhas enegrecidas

Para arrancar dos vossos dentes azuis

Uma côdea para os nossos filhos.

-

Aqui ficaremos

Como um pesado muro sobre os vossos peitos

Nós famintos

Que não temos que vestir

Nós vos desafiamos.

Cantamos as nossas canções

Percorremos as ruas violentas com as nossas manifestações de raiva

Enchemos as prisões com dignidade e orgulho

Continuamos a ter filhos

Uma geração revolucionária

Depois de outra

Como se fôssemos vinte impossibilidades

Em Lydda, em Ramla, na Galileia!

-

Aqui ficaremos

Façam-nos o pior

Nós guardamos a sombra

Da oliveira e da figueira

Nós semeamos as ideias

Qual fermento na massa

Os nossos nervos estão enregelados

Mas o fogo do inferno aquece os nossos corações.

-

Se tivermos sede

Espremeremos as rochas

Se tivermos fome

Comeremos a terra

Mas nunca partiremos.

O nosso sangue é puro

Mas não o pouparemos.

Aqui temos o nosso passado

O nosso presente

E o nosso futuro

O nosso futuro está atrás de nós.

Como se fôssemos vinte impossibilidades

Em Lydda, em Ramla, na Galileia

Ó raízes vivas agarrem-se firmemente

E penetrem no fundo da terra.

-

É melhor para o opressor

Refazer as suas contas

Antes que a roda desande

“Para cada acção há uma reacção” – ouçam

O que diz o Livro.


Tawfiq Zayyad (1929 - 1994), poeta palestino.