quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Sem título

Tinha sentado no chão gelado da cozinha. Em uma das mãos, a insegurança, na outra, a solidão. Os pés de aço da mesa refletiam o medo. Ouvia o silêncio, que só não era maior devido ao tic-tac agonizante do relógio pendurado na parede. Percebia o quanto aquilo havia crescido, se tornado a válvula de escape para as frustrações anteriores. Outro golpe. Maior ou menor, já não fazia a menor diferença, colocaria no mesmo mural, na mesma exposição, na mesma esperança de que na próxima vez ela olhasse com uma maior atenção e pensasse: você já passou por isso antes, não cometa o mesmo erro, é burrice! O silêncio ainda ecoava, o frio retraía cada músculo do seu corpo magro. O cansaço do dia deitava sobre a tristeza da noite, iria acabar como todas as outras: pensativa, debaixo de algumas camadas de cobertor. Achou que seria mais forte... mas não é. Talvez nunca seja afinal, se lembrou de como foi criada, de como acreditava não ser nem um pouco auto-sustentável. O sono aumentava, os pensamentos se misturavam e se transformavam na figura envelhecida de um labirinto. Não sabia pra onde correr e nem se queria voltar. Queria ficar no meio do caminho, assim, intacta.

domingo, 30 de agosto de 2009

Angústia - Graciliano Ramos

"O que eu precisava era ler um romance fantástico, um romance besta, em que os homens e as mulheres fossem criações absurdas, não andassem magoando-se, traindo-se. Histórias fáceis, sem almas complicadas. Infelizmente essas leituras já não me comovem."

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Do amoroso esquecimento - Quintana

Eu, agora - que desfecho!
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
de lembrar que te esqueci?

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Os Lusíadas - Canto I, estrofe 106

No mar tanta tormenta, e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida!
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade avorrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme, e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Mecanismo - Ludov

Eu não sei se quero fazer parte disso.
Esse mecanismo está prestes a parar.
É tanto desespero que o passo é impreciso.
Esse mecanismo ainda vai degringolar.

As ruas que eu caminhava mudaram de direção.
Me sinto perdido, andando em círculos sociais,
entrando em contramão,
confundindo sinais.

Ser o que se espera sem ser previsível.
Vai ficar díficil pro navio navegar.
Se for só por vaidade peço pra anular o visto.
Fogos de artifício também podem te queimar.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

"(...) e quando chega essa hora da noite eu me desencanto. Viro outra vez aquilo que sou todo dia: fechada, sozinha, perdida no meu quarto, longe da roda e de tudo: uma criança assustada."
*
Caio Fernando Abreu